Foto: Site Amor Exigente

       Maria e José moravam em uma favela – uma “comunidade” – que era, como quase todas, controlada por um grupo de narcoterrorismo – uma “facção”. O casal vivia sua vida sob o regime de terror dos traficantes. Tiveram um filho, o menino virou um rapaz e o casal se separou. O pai foi morar em outra “comunidade”, controlada por uma “facção” diferente. É rotina no Brasil. Vida que segue. Um dia, o rapaz vai visitar o pai. Sentados na sala, José e o filho assistem um jogo na TV quando alguém bate na porta. São traficantes armados – “comerciantes varejistas de drogas ilícitas”, como dizem alguns intelectuais cariocas. José é obrigado assistir ao martírio de seu filho. Primeiro, o rapaz é amarrado em um carro e arrastado por toda a favela. Depois é levado para uma praça. Os traficantes chamam os moradores. À vista de todos, o filho de José é assassinado com tiros de fuzil. Para que sirva de exemplo. Morador de território de outra facção não entra aqui. Essa é a lei daquela terra. Essa é a Constituição que vigora nas “comunidades”. Essa é a “justiça social” do narcoterrorismo, construída em cima dos pilares gêmeos da ideologia, da corrupção e do hedonismo de uma sociedade anestesiada por maconha, cocaína e crack.

      Uma sociedade que confunde liberdade com vício. Os traficantes foram presos e processados. Na fase inicial do processo, o pai foi convocado como testemunha. No tribunal, José se disse incapaz de reconhecer os assassinos do seu filho. Os criminosos foram soltos. José voltou ao gabinete do juiz, após a audiência. Ele se aproximou do promotor de justiça. Trêmulo, olhos vermelhos, voz de desespero profundo, ele disse: “Doutor, eu tive que mentir. Se falasse a verdade seria um homem morto”. Por isso eu digo a você, cidadão comum, que vive com medo de ser vítima do crime. Você, que anda desprotegido pelas ruas do nosso país. Você que escuta, incrédulo, pessoas defendendo a “liberação” das drogas: a próxima vez que você sentir o cheiro de maconha no ar, lembre-se de José.

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Como Vera Malaguti Batista diz em seu livro “Introdução Crítica à Criminologia Brasileira”, um texto exigido na prova de ingresso no mestrado de direito da UERJ. Publicado página de Roberto Motta.